Análide Inside Loud #6: Mr. Bungle – Mr. Bungle

Bandas que não possuem um grande apelo comercial, ou que buscam sempre se arriscar e inovar musicalmente, acabam, muitas vezes, sendo deixadas de lado pelo grande público.

Algumas, sequer conseguem um reconhecimento mediano a ponto de se manterem ativas. Outras, conseguem reunir uma considerável legião de fãs e seguidores, tornando-se uma espécie de banda cult.

Mr. Bungle se encaixa entre essas duas categorias. Não sendo uma banda largamente cultuada mundo afora, mas também não sendo completamente deixada de lado durante sua carreira, o grupo, formado por jovens rapazes com seus menos de 18 anos de idade, em 1985, é considerado, por alguns, um dos maiores expoentes do Avant-garde Norte-americano. Além disso, a banda é conhecida por ter dado a largada na carreira de alguns dos músicos mais talentosos das duas últimas décadas, como Mike Patton (Faith No MoreFantômasTomahawk e outros), Trey Spruance (Secret Chiefs 3Faith No More e outros) e Trevor Dunn (FantômasJohn ZornSecret Chiefs 3 e outros).

Mas não estou aqui para falar sobre a formação da banda e, sim, sobre o primeiro álbum de estúdio, lançado em 1991 e intitulado, simplesmente, Mr. Bungle.

Após uma série de demos lançadas nos anos 80, o primeiro álbum apresentou o que já se esperava da banda: muito experimentalismo, descompromisso com qualquer gênero ou “dogma musical” e músicas complexas e ecléticas, que flertam com MetalFunk e todos os elementos que fazem com que o som do grupo soe pesado, obscuro, empolgante e divertido, tudo ao mesmo tempo e na medida exata. Isso, o Mr. Bungle faz como poucos.

Não se iluda pelo fato do álbum ter sido lançado pela Warner Bros. O álbum não foi, nem de longe, um sucesso comercial e, musicalmente, é digno das produções mais independentes do Avante-garde.

O que esperar da banda, acho que todos sabem. Mas será que é possivel algo de qualidade de toda essa mistura? Tentarei, aqui, transmitir em palavras o que sai desse álbum. Confiram!

Detalhes do álbum:

Imagem: bvmtv.com

Faixas:
1. Quote Unquote
2. Slowly Growing Deaf
3. Squeezi Me Macaroni
4. Carousel
5. Egg
6. Stubb (A Dub)
7. My Ass Is On Fire
8. The Girls Of Porn
9. Love Is A Fist
10. Dead Goon

Data de lançamento: 13 de Agosto de 1991.
País: EUA.
Gravadora: Warner Bros / WEA.
Gênero: Avante-garde Metal.
Produção: Mr. Bungle e John Zorn.

Singles: “Quote Unquote”.
Maior posição nos charts: —

Integrantes:
Mike Patton: vocais.
Trey Spruance: guitarras.
Trevor Dunn: baixo.
Danny Heifetz: bateria.
Clinton McKinnon: saxofone tenor.
Theo Lengyel: saxofone alto e barítono, trompetes.

Membros convidados:
Yeesus Krist: vocais de fundo.
Maximum Bob: vocais de fundo.
Kahli: vocais de fundo.
Jennifer: vocais de fundo.

Outras resenhas:
All Music: Nota 4,5 de 5.
Sputnikmusic: Nota 4,5 de 5.

Análise da Inside Loud:

Parte 1: Análise geral

A primeira faixa do álbum é o singleQuote Unquote“, – única música da banda a ter um vídeo-clipe gravado e cujo título original era “Travolta” – que já dá um gostinho do que será apresentado no disco: variações rítmicas, influências diversas e muita qualidade de seus músicos. A música tem um início digno de um filme de horror, caindo numa levada mais funk, mas mantendo o clima mais “obscuro”, caraterístico do disco. Para não me tornar repetitivo nesse review, já adianto aqui: os vocais de Mike Patton são um show à parte, com uma versatilidade que beira o absurdo – e não me refiro especificamente a essa primeira faixa, pois a coisa só melhora no decorrer do disco.

Slowing Growing Deaf” tem uma abertura Ska/Funk que cai numa levada cadenciada e num refrão que lembra o Alternative Rock de bandas como o próprio Faith No More, onde Patton já cantava desde 1989. A música mantém seu andamento flertando exaustivamente com o Funk e até com passagens Rockabilly em seus mais de 6 minutos de duração – que é algo a se notar nesse disco, já que as faixas possuem entre 5 e 7 minutos duração e uma delas, inclusive, possui mais de 10 minutos. Mantendo a caraterística da faixa anterior e de várias outras do disco, esta também possui pequenos interlúdios com efeitos sonoros, ambientações, falas, etc.

E se as influências do Ska já não estavam sendo gritantes o bastante, “Squeeze Me Macaroni” as deixam ainda mais evidentes, com seu ritmo acelerado e as ótimas linhas de guitarra de Trey Spruance, um cara que manda bem em tudo que toca. Mas não se engane, apesar de todas essas influências e todas as esquisitices que Patton faz com seu vocal – muito diferente do vocal mais “correto” que ele fazia em sua outra banda na época – o álbum possui muita pegada e peso muito bem encaixados em cada trecho das músicas.

Mais uma brilhante música chega aos nossos ouvidos com “Carousel“, novamente com um ótimo Ska/Funk Rock, com direito a trompetes e tudo mais. No refrão, as distorções das guitarras dão um peso que destoa de todo o restante da música, mas que a deixam ainda mais interessante. No meio da faixa, ainda somos agraciados com alguns sons “infantis” – ok, não sei exatamente como descrever isso, mas acho que só ouvindo para saber – e xilofones que, mesmo assim, conseguem nos direcionar, em seguida, a um dos trechos mais pesados da música. Coisas que só essa turma poderia nos proporcionar.

Egg“, a faixa mais longa do álbum, tem um início na mesma pegada de “Squeze Me Macaroni” e é, sem dúvida, um dos pontos altos do trabalho como um todo. O refrão com ritmo acelerado, onde o título da faixa é repetido algumas vezes acompanhado de trompetes, faria alguns artistas de década de 50 e 60 se orgulharem. De qualquer forma, a música possui suas passagens mais pesadas, cadenciadas e obscuras – afinal, se eles já fazem de tudo em 5 minutos, imaginem em 10! Alguns trechos são um verdadeiro caos, com algumas das ideias mais pesadas e “violentas” que a banda usou no disco. Sinceramente, só ouvindo para se ter ideia do que acontece aqui. Poucas bandas dentro do Rock conseguiram abusar tanto do experimentalismo sem soarem enfadonhas. A letra é um detalhe que vale ser comentado. Uma banda que canta Oh an egg comes out of a chicken, Oh a chicken comes out of an egg, ainda soando divertida e sem nos passar sensação de vergonha, merece meu respeito.

Não comentei até aqui, mas devo dizer: as linhas de baixo de Trevor Dunn são sensacionais. Não ficam escondidas nas músicas e dão toda aquela pegada FunkJazz ao disco.

A banda é impressionante, do início ao fim do disco. Saibam disso.

Stubb (A Dub)“, com seus mais de 7 minutos, tem um início calmo, acompanhado por um órgão – muito provavelmente emulado – e com aqueles vocais suaves característicos de Patton. De repente, a música cai num ritmo frenético, naquele estilo “caricato”, como se fosse trilha sonora de um desenho da Looney Tunes – e acredite, nem assim a música soa ruim. Algumas passagens da música lembram “Quote Unquote“, com seu clima mais pesado. Acha que nada mais pode surgir daí? Ledo engano. Certos trechos dessa música nos remetem – estranhamente – a sons com influência da Dance Music e da música Oriental – música Oriental é algo bem amplo, eu sei, mas pense em algo entre o Oriente Médio e a Índia. Uma das músicas mais malucas do disco.

Vale mais uma observação aqui, agora no que diz respeito às letras. Aliado ao estilo despojado da música, elas soam cômicas e irônicas, mas naquele estilo que acabou marcando a carreira de Patton, sem se preocupar com o pudor, nos fazendo rir e, também, pensar – às vezes – sobre o que é dito ali.

E falando em letras cômicas, “My Ass Is On Fire” leva esse conceito às alturas. Sem dúvida é uma das faixas mais pesadas do disco, seja pelas guitarras de Spruance ou pelos vocais de Patton, que potencializam ainda mais a agressividade da música em certos pontos. Mais uma vez, difícil descrever em palavras, mas é uma faixa que foge do Ska/Funk e foca mais no Rock/Metal – à maneira maluca do Mr. Bungle, claro.

A faixa que vem em seguida, “The Girls Of Porn“, inicia-se com o áudio de um pequeno trecho de um filme pornô, com o personagem/protagonista chamado Mr. Bungle – já estão alertados, então nada de ouvirem essa música com o som alto na casa da sua mãe – e tem, em seus primeiros acordes, uma sonoridade entre o Ska e o Reggae. Mas isso não dura mais que alguns 30 segundos. O que vem em seguida é um riff pesado, porém com muito groove, lembrando ótimas bandas que fizeram essa mescla entre o Funk e o Metal, como o Infectious Grooves e o Ugly Kid Joe. Além dos ótimos riffs, a melodia principal da música é guiada pelo baixo de Dunn e os ótimos saxofones, que a deixam ainda mais interessante. O refrão talvez seja um dos mais parecidos com o que Patton fez em seu primeiro álbum com o Faith No More. A música segue com uma levada um pouco mais cadenciada, com mais sons pornográficos de fundo e com uma letra de fazer dar gargalhadas! – satirizando a industria pornográfica e seus “fiéis” expectadores.

Difícil dizer se essa ou aquela faixa é a melhor, mas “The Girls Of Porn” certamente ganha no quesito groove.

E chegando com uma introdução bem Metal, “Love Is A Fist” engana pelo seu ritmo mais lento – muito bem executado e acompanhado pelo saxofone, diga-se – e acaba se tornando uma música que pode figurar entre as mais pesadas do disco, com um refrão que poderia ter sido gravado por qualquer banda de Thrash Metal dos anos 80 – apenas o refrão, pois ele, unido ao restante da obra, nos dá aquele tal som que ninguém faz como o Mr. Bungle. Os vocais agressivos de Patton, em certos pontos, além de vários daqueles efeitos “bizarros” que ele adora fazer um sua voz, ajudam a dar o peso correto à música.

A música em si é curta, – a mais curta do álbum – principalmente porque em seu último minuto-e-meio, entre ela e a próxima – e última – faixa, “Dead Goon“, é tocado um trecho com falas do vídeo educacional – famoso nos EUA – com o personagem Mr. Bungle, que inspirou o nome da banda.

O álbum chega, então, ao seu fim com a “psicodélica” – e longa – “Dead Goon“. Talvez seja uma das músicas mais experimentais do disco, com vários efeitos e quebradas de ritmos – não que isso seja anormal no álbum, de qualquer forma. Temos, novamente, linhas de guitarras nas mais diversas formas, um baixo presente a todo instante, os vocais de Patton indo do dramático ao cômico com extrema facilidade e ritmos que conseguem ser obscuros, pesados, dançantes e divertidos. Sabe aquela história do Looney Tunes? Pois é, tem mais aqui! O refrão tem um ritmo que se fosse trabalhado por algum grupo Pop dos anos 80, poderia virar um hit.

No mais, a música usa e abusa de efeitos sonoros e parece encerrar o álbum dando uma retrospectiva de tudo o que a banda foi capaz de fazer no disco. Peso, velocidade, cadência, experimentações – coisas que fariam Frank Zappa e John Zorn sorrirem – e uma gama tamanha de ritmos, que fica até difícil descrever em palavras.

No final, o álbum ainda nos brinda com um pequeno trecho vindo direto da música Pop Norte-americana dos anos 40 e 50 – Frank Sinatra e afins.

Parte 2: Notas faixa-a-faixa

Clique para ampliar.

Parte 3: O lado técnico

A produção do disco ficou a cargo de ninguém menos com John Zorn, um dos “gurus” do Avant-garde. Ao lado dele, estava a equipe de mixagem, engenharia e masterização composta por David BrysonMatt MurmanBob Ludwing, que ajudaram a transformar o primeiro álbum de estúdio do Mr. Bungle em uma autêntica obra-prima do estilo.

Os pequenos “interlúdios” que fizeram a conexão entre cada uma das faixas, aliados aos vários efeitos sonoros produzidos em estúdio, fizeram transparecer todo o evidente talento que esses jovens músicos já possuíam na época.

Seja na clareza das guitarras de Trey Spruance, – tanto nos sons mais pesados, quanto naqueles influenciados pelo Ska/Funk –  no vocal bem trabalhado de Mike Patton, no brilho da bateria de Danny Heifetz, no baixo sempre presente de Trevor Dunn ou nas participações sempre marcantes dos saxofones e trompetes, a produção é cristalina e muito vívida.

Nenhuma produção faz milagre, mas, às vezes, consegue evidenciar o talento.

Nada mal para uma jovem banda ainda em seu primeiro álbum.

Nota 9.

Parte 4: A arte gráfica

A arte do disco, produzida por David LouapreDan Sweetman, – em parceria com a extinta companhia de design Karath=Razar, que já trabalhou com John Zorn – mostra um velho palhaço gordo e descabelado e, consegue, de certa forma, passar a ideia de descontração e “temor” que está por trás da música.

Para quem não sabe, os integrantes do Mr. Bungle, durante os primeiros anos, usavam nomes fictícios e máscaras em suas apresentações, – bem antes de algumas bandas por aí – então a capa do álbum cai bem.

Nota 8.

Parte 5: Apanhado geral e resultado

Minha recomendação a quem está lendo este review e nunca ouviu esse disco: escute com calma, com mente aberta e tentando entender a proposta da banda.

Digo ainda mais: escute os outros dois álbuns de estúdio da banda – “Disco Volante” e “California” – e aprecie alguns dos melhores trabalhos do Avant-garde dos anos 90.

Este álbum não se trata, em hipótese alguma, de um conjunto de músicas para serem tocadas em rádios ou qualquer coisa desse tipo. É um trabalho extremamente artístico, que mostra um grupo de jovens talentosos, ousados e sem o menor pudor, atestando que, para a boa música, não há limites ou restrições.

Para qualquer fã de RockMetal em geral, que não se apegue a rótulos e a pré-conceitos, eu recomendo este disco, que veio de uma das bandas mais subestimadas de todos os tempos.

Apenas ouvindo para entender.

Nota final: 8,8.


Resumo e curiosidades:

– Música com maior nota: “Quote Unquote”, “Stubb (A Dub)” e “The Girls Of Porn”.
– Música com menor nota: “Love Is a Fist”.
– Melhor atuação dos vocais: Todas as faixas.
– Melhor letra: “Quote Unquote”, “Stubb (A Dub)”, “The Girls Of Porn” e “Dead Goon”.
– Melhor instrumental: “Egg”.

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